domingo, 15 de maio de 2016

NÓS ACUSAMOS

Por: Vladimir Safatle

Diante da gravidade da situação nacional e da miséria das alternativas que se apresentam:
Nós acusamos o governo interino que agora se inicia de já nascer morto. Nunca na história da República brasileira um governo começou com tanta ilegitimidade e contestação popular. Se, diante de Collor, o procedimento de impeachment foi um momento de reunificação nacional contra um presidente rejeitado por todos, diante do governo Dilma o impeachment foi o momento em que tivemos de construir um muro para separar a Esplanada dos Ministérios em dois.
Esse muro não cairá, ele se aprofundará cada vez mais. Aqueles que apoiaram Dilma e aqueles que, mesmo não a apoiando compreenderam muito bem o oportunismo de uma classe política à procura de instrumentalizar a revolta popular contra a corrupção para sua própria sobrevivência, não voltarão para casa. Esse será o governo da crise permanente.
Nós acusamos os representantes desse governo interino de serem personagens de outro tempo, zumbis de um passado que teima em não morrer. Eles não são a solução para a crise política, mas a própria crise política no poder. Suas práticas políticas oligárquicas e palacianas só poderiam redundar em um golpe parlamentar denunciado no mundo inteiro.
Por isso, eles temem toda possibilidade de eleições gerais. Eles governarão com a violência policial em uma mão e com a cartilha fracassada das políticas de "austeridade" na outra. Políticas que nunca seriam referendadas em uma eleição. Com tais personagens no poder, não há mais razão alguma para chamar o que temos em nosso país de "democracia".
Nós acusamos o governo Dilma de ter colocado o Brasil na maior crise política de sua história. A sequência de escândalos de corrupção não foi uma invenção da imprensa, mas uma prática normal de governo.
De nada adianta dizer que essa prática sempre foi normal, pois a própria existência da esquerda brasileira esteve vinculada à possibilidade de expulsar os interesses privados da esfera do bem comum, moralizando as instituições públicas.
Que os setores da esquerda brasileira no governo façam sua autocrítica implacável. Por outro lado, a procura pela criação de uma conciliação impossível apenas levou o governo a se descaracterizar por completo, a abraçar o que ele agora denuncia, distanciando-se de seus próprios eleitores. O caráter errático deste governo foi a mão que cavou sua própria sepultura. Que esta errância sirva de lição à esquerda como um todo.
Nós acusamos aqueles que nunca quiseram encarar o dever de acertar contas com o passado ditatorial brasileiro e afastar da vida pública os que apoiaram a ditadura como responsáveis diretos pela instauração desta crise. A crise atual é a prova maior do fracasso da Nova República.
Que um candidato fascista (e aqui o termo é completamente adequado) como Jair Bolsonaro tenha hoje 20% das intenções de voto entre os eleitores com renda acima de dez salários mínimos mostra quão ilusória foi nossa "conciliação nacional" pós-ditadura. O fato de nossas cadeias não abrigarem nenhum torturador deveria servir de claro sinal de alerta.
Tal fato serviu apenas para preservar os setores da população que agora abraçam um fascista caricato e saem às ruas com palavras de ordem dignas da Guerra Fria. Por isso, a cada dia que passa, percebe-se como este setor da população se julga autorizado a cometer novas violências de toda ordem. Isso está apenas começando.
Nós acusamos setores hegemônicos da imprensa de regredirem a um estágio de parcialidade há muito não visto no país. Diante de uma situação de divisão nacional, não cabe à imprensa incitar manifestações de um lado e esconder as manifestações de outro, transformar-se em tribunal midiático e parcial, julgando, destruindo moralmente alguns acusados e preservando outros, deixando mesmo de se interessar por vários escândalos quando esses não atingem diretamente o governo.
Essa postura apenas servirá para explodir ainda mais os antagonismos e para reduzir a imprensa à condição de partido político.
Nesse momento em que alguns inclinam-se à uma posição melancólica diante dos descaminhos do país, há de se lembrar que podemos sempre falar em nome da primeira pessoa do plural, e esta será nossa maior força.
Faz parte da lógica do poder produzir melancolia, nos levar a acreditar em nossa fraqueza e isolamento. Mas há muitos que foram, são e serão como nós. Quem chorou diante dos momentos de miséria política que esse país viveu nos últimos tempos, que se lembre de que o Brasil sempre surpreendeu e surpreenderá. Esse não é o país de Temer, Bolsonaro, Cunha, Renan, Malafaia, Alckmin.
Esse é o país de Zumbi, Prestes, Pagu, Lamarca, Francisco Julião, Darcy Ribeiro, Celso Furtado e, principalmente, nosso. Há um corpo político novo que emergirá quando a oligarquia e sua claque menos esperar.


sexta-feira, 18 de março de 2016

O suicídio da Lava Jato

Texto de Vladimir Safatle:

O juiz Sérgio Moro conseguiu o inacreditável: tornar-se tão indefensável quanto aqueles que ele procura julgar. Contrariamente ao que muito defenderam nos últimos dias, suas últimas ações são simplesmente uma afronta a qualquer ideia mínima de Estado democrático. Não se luta contra bandidos utilizando atos de banditismo.
A divulgação das conversas de Lula com seu advogado constitui uma quebra de sigilo e um crime grave em qualquer parte do mundo. Não há absolutamente nada que justifique o desrespeito à inviolabilidade da comunicação entre cliente e advogado, independente de quem seja o cliente. Ainda mais absurdo é a divulgação de um grampo envolvendo a presidente da República por um juiz de primeira instância tendo em vista simplesmente o acirramento de uma crise política.
Alguns acham que os fins justificam os meios. No entanto, há de se lembrar que quem se serve de meios espúrios destrói a correção dos fins.
Pois deveríamos começar por nos perguntar que país será este no qual um juiz de primeira instância acredita ter o direito de divulgar à imprensa nacional a gravação de uma conversa da presidente da República na qual, é sempre bom lembrar, não há nada que possa ser considerado ilegal ou criminoso.
Afinal, o argumento de obstrução de Justiça não para em pé. Dilma tem o direito de nomear quem quiser e Lula não é réu em processo algum. Se as provas contra ele se mostrarem substanciais, Lula será julgado pelo mesmo tribunal que colocou vários membros de seu partido, de maneira merecida, na cadeia, como foi no caso do mensalão.
Lembremos que "obstrução de Justiça" é uma situação na qual o indivíduo, de má-fé e intencionalmente, coloca obstáculos à ação da Justiça para inibir o cumprimento de uma ordem judicial ou diligência policial. Nomear alguém ministro, levando-o a ser julgado pelo STF, só pode ser "obstrução" se entendermos que o Supremo Tribunal não faz parte da "Justiça".
A fragilidade do argumento é patente, assim como é frágil a intenção de usar um grampo ilegal cuja interpretação fornecida pelo sr. Moro é, no mínimo, passível de questionamento.
Na verdade, há muitas pessoas no país que temem que o sr. Moro tenha deixado sua função de juiz responsável pela condução de processo sobre as relações incestuosas entre a classe política e as mega construtoras para se tornar um mero incitador da derrubada de um governo.
A Operação Lava Jato já tinha sido criticada não por aqueles que temiam sua extensão, mas por aqueles que queriam vê-la ir mais longe. Há tempos, ela mais parece uma operação mãos limpas maneta.
Mesmo com denúncias se avolumando, uma parte da classe política até agora sempre passa ilesa. Não há "vazamentos" contra a oposição, embora todos soubessem de nomes e esquemas ligados ao governo FHC e a seu partido. Só agora eles começaram a aparecer, como Aécio Neves e Pedro Malan.
Reitero o que escrevi nesta mesma coluna, na semana passada: não devemos ter solidariedade alguma com um governo envolvido até o pescoço em casos de corrupção. Mas não se trata aqui de solidariedade a governos. Trata-se de recusar naturalizar práticas espúrias, que não seriam aceitas em nenhum Estado minimamente democrático.
Não quero viver em um país que permite a um juiz se sentir autorizado a desrespeitar os direitos elementares de seus cidadãos por ter sido incitado por um circo midiático composto de revistas e jornais que apoiaram, até o fim, ditaduras e por canais de televisão que pagaram salários fictícios para ex-amantes de presidentes da República a fim de protegê-los de escândalos.
O Ministério Público ganhou independência em relação ao poder executivo e legislativo, mas parece que ganhou também uma dependência viciosa em relação aos humores peculiares e à moralidade seletiva de setores hegemônicos da imprensa.
Passam-se os dias e fica cada dia mais claro que a comoção criada pela Lava Jato tem como alvo único o governo federal.
Por isso, é muito provável que, derrubado o governo e posto Lula na cadeia, a Lava Jato sumirá paulatinamente do noticiário, a imprensa será só sorrisos para os dias vindouros, o dólar cairá, a bolsa subirá e voltarão ao comando os mesmos corruptos de sempre, já que eles foram poupados de maneira sistemática durante toda a fase quente da operação.
O que poderia ter sido a exposição de como a democracia brasileira só funcionou até agora sob corrupção, precisando ser radicalmente mudada, terá sido apenas uma farsa grotesca. 

fonte: http://www1.folha.uol.com.br/colunas/vladimirsafatle/2016/03/1751218-o-suicidio-da-lava-jato.shtml

quinta-feira, 17 de março de 2016

Legalidade Democrática, sim!

Era uma vez a turma do "Aécio 45" que não venceu nas urnas. Descontentes, uniram forças e tornaram-se "Joaquim Barbosa para presidente", não tendo dado certo, aplaudiram o "Japonês da Federal" e a moda agora é: "Somos todos Moro". Como podem elegê-lo paladino da moral, apesar de suas arbitrariedades?

A imprensa tem um poder muito grande sobre as escolhas ( e a moralidade) das pessoas. Toda foto, toda manchete de jornal/revista, todo recorte de fala são especialmente escolhidos. A imprensa (toda ela, TODA!) dá voz à quem corresponde aos seus interesses. E, sim, toda a imprensa tem interesses. (Aliás, todos nós temos interesses). Reconhecer este fato é importante para assumir qualquer postura de forma lúcida.

Infelizmente muita gente está se envolvendo por modismo com forças reacionárias, com pouca ou nenhuma clareza dos fatos. Por outro lado, temos também, embora não amplamente divulgado, alguns movimentos de resistência ao golpe. Foi um alento receber hoje uma série de vídeos do Ato pela Legalidade Democrática no Teatro da Universidade Católica de São Paulo que aconteceu ontem à noite. A união de intelectuais, juristas, movimentos sociais e artistas na noite passada mantém ainda uma centelha de esperança acesa.



domingo, 13 de março de 2016

Da arte de sujar o que se lava a jato

Li na Falha de São Paulo que  Aécio Neves e  Geraldo Alckmin estarão juntos na paulista em manifestação contra Dilma. Em seguida ouvi um comentário ácido-engraçado, prevendo que o primeiro levará 30% de pó e o outro 50% da merenda do estado de São Paulo. Superfaturando e manifestando...Má oêêê! 
À parte esses safados e seus seguidores, abaixo partilho um texto de Vladimir Safatle, porque coerência e bom senso caem sempre muito bem...
"Um dos principais predicados da justiça é a simetria. Justo é tratar de maneira simétrica, aplicar a mesma medida a todos aqueles que serão julgados.
Na ausência de simetria, a aplicação da justiça se transforma em mera expressão de jogo de poder, pois a justiça é injusta quando trata de maneira justa apenas uma parte dos envolvidos.
Vale lembrar desses princípios elementares de filosofia moral para compreender a indignação que tomou parte da população brasileira com os últimos desdobramentos da Operação Lava Jato.
É inegável a importância da operação no desvelamento do esquema incestuoso de relação entre empresariado e governo construído como alicerce da Nova República.
Ela mostra claramente o que é o capitalismo brasileiro: um oligopólio composto por megaempresas que não operam a partir da lógica da concorrência, mas da corrupção contínua e generalizada do Estado como condição normal de funcionamento.
Desde o seu início, a Lava Jato deixou claro como estávamos falando de um funcionamento que envolvia toda (deixe-me repetir, toda) a classe política brasileira. O assalto à Petrobras não era traço distintivo deste governo, mas já vinha desde o governo FHC.
Os beneficiários de doações ilegais das empreiteiras não eram apenas membros do governo. Aécio Neves estava lá em mais de uma delação, seu sucessor no governo de Minas, Antonio Anastasia, foi imediatamente citado logo na primeira leva da operação.
Repetia-se assim um roteiro que vimos no caso do mensalão, quando o governo Lula havia se beneficiado de um esquema de corrupção em operação no governo FHC e liderado pelo ex-presidente de seu partido, o sr. Eduardo Azeredo. Lembrar disto não é retirar a responsabilidade dos últimos governos federais.
Não há solidariedade possível com governos, como os dois últimos, que usaram sistematicamente da corrupção do Estado e cujos maiores operadores mostram marcas de enriquecimento ilícito.
Mas não haverá mundo pior do que aquele no qual alguns são punidos pela corrupção enquanto outros podem corromper impunemente.
Até agora, é para este mundo que a Operação Lava Jato está a apontar. É isso que dá, para muitos, a impressão de que tudo se passa como se a operação fosse peça de uma briga de gângsteres para saber quem vai conduzir os negócios de sempre.
De fato, o tucanato é uma espécie de Houdini da política brasileira: consegue sempre escapar ileso de todo caso de corrupção e da culpabilização de suas ações escandalosas.
José Dirceu está hoje na cadeia devido ao mensalão; o que é justo. Mas pergunte-se onde está Eduardo Azeredo. Solto ou na cadeia?
As contas da campanha de Dilma estão sendo julgadas, o que é justo. E as contas de Aécio?
Lula está sendo investigado por sinais de relações incestuosas com megaempreiteiras, o que é justo. Contrariamente ao que dizem alguns, é assim que se trata um ex-presidente.
Em sua defesa na semana passada, Lula não escondeu o apreço que tem por tais empreiteiras corruptas. Ele escolheu seu caminho.
Mas e FHC, como ele é tratado? Há semanas atrás, o país descobriu estarrecido que, enquanto presidente, Fernando Henrique Cardoso mantinha relações de profunda dependência com uma megaempresa por ela ter dado um jeito de sumir com sua amante, pagando-lhe salários fictícios e livrando-o assim de um possível escândalo que poderia abalar sua carreira. Isso não se trata de “problema pessoal” nem é fato ligado à sua vida privada.
Em qualquer país do mundo, algo dessa natureza seria um escândalo intolerável por mostrar o grau de fragilização do exercício da presidência e de submissão que alguns políticos estão dispostos a produzir.
O fato mostraria o tipo de relação espúria e incestuosa que setores da imprensa têm com o poder. Mas no Brasil, sendo o senhor em questão um tucano, o caso inacreditavelmente não teve maiores consequências.
Assimetrias como essas são a razão primeira do grau explosivo de tensão a que chegamos atualmente no Brasil.
Tivesse a Justiça operado de maneira justa com todos e tivessem setores da imprensa atuado de maneira implacável com todos, teríamos a segurança de não haver interesses inconfessáveis por trás de ações espetaculares como as vistas semana passada.
Mas a assimetria produz uma insegurança profunda a respeito das intenções em jogo, o que é um convite à desagregação completa dos pactos no interior da combalida democracia brasileira."

domingo, 10 de janeiro de 2016

TREZE ANOS

Todo dia 10 de janeiro relembro o dia mais incrível da minha vida, os últimos minutos antes que eu pudesse ouvir o chorinho do meu bebê e a primeira vez que vi o seu rostinho.  Para mim, ser mãe é uma experiência muito forte. Impossível não me emocionar nesta data tão querida...Hoje, esta é a minha oração:

"Que nossos filhos não sejam desculpas
para nosso medo de enfrentar o mundo
nem para nossa voracidade,
a sede de poder,
ou o acúmulo de bens.
Que nossos filhos não sejam motivo
para permanecermos em casamentos sem amor
ou sem respeito mútuo,
pois essa culpa se tornará para eles
um peso impossível de carregar.
Que nossos filhos não sejam educados
como uma forma de realizar nossas frustrações
nem como porta-vozes de nossa omissão.
Não pretendamos que os filhos tragam a solução para a solidão,
porque ninguém pode assumir a solidão de outrem.
Que nossos filhos exerçam somente
a busca por iluminar suas próprias almas.
E que nós, pais,
sejamos apenas guardiões
dessas sementes desabrochando."

Texto de Roberto Shinyashiki

Foto de Victor Sunaga por Henderson Moret

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

A felicidade das estrelas


Achei genial a charge acima. Felicidade é tema que nunca sai de pauta. Já muitos filósofos pensaram sobre este tema. Mas, filósofos são chatos, cansativos e convidam-nos a pensar e, pensar, dá muito trabalho...Interessantes e excitantes são os profissionais que oferecem respostas práticas e caminhos rápidos para a "felicidade".

É comum encontrarmos vendedores divulgando seus produtos tendo como referência pessoas famosas. Tenha os cabelos das estrelas, as unhas das estrelas, o sorriso das estrelas, o corpo das estrelas, a vida das estrelas... Um momento de silêncio, de espera, num mundo que gira às pressas, incomoda muito. Melhor entreter as gentes com imagens que as gentes gostam de ver. Televisores ligados nos canais mais populares, digamos assim, e revistas-lixo são frequentemente encontradas- aos montes- como opção de lazer nas salas de espera.

Aquele papo aristotélico de eudaimonia é coisa do passado.  Agora, os famosos do mundo artístico é que são tomados como modelo de "vida boa", de "vida feliz".  (Aliás, no nosso tempo é um dever acompanhar as novelas e a vida de artistas, se quisermos ter assunto em qualquer ocasião.)

Acontece que, no fim das contas, a forma de agir das pessoas reflete sempre uma forma de pensar, a busca de um ideal. Se o ideal hoje é o personagem famoso e bonito da televisão, o investimento da massa vai ser nesse sentido. O objetivo de vida passa a ser, então, a felicidade aos moldes da TV. Artistas e famosos tornam-se a inspiração de seus seguidores.

Como todos os mortais, os lindões da TV vão envelhecendo e sendo substituídos por outros mais novos. O tempo naturalmente passa também para os telespectadores, que não se percebem ridículos correndo em busca daquele padrão cristalizado nas imagens da TV e das revistas. Para evitar o encontro com o vazio de suas existências, os telespectadores seguem consumindo loucamente mais e mais produtos com promessas de "felicidade". Viciados no estado de euforia que cada produto novo traz, os miseráveis  de espírito mantem a riqueza (financeira) de quem lhes rouba a alma.

Um dos  resultados desse modo de vida médio é o esvaziamento da humanidade das pessoas na proporção do seu  inchaço com artefatos desnecessários. Acúmulo de bens materiais e esvaziamento de significado, de vida, ou de espiritualidade, por assim dizer...

terça-feira, 5 de janeiro de 2016

Ouvindo quem entende sobre desenvolvimento social e combate à miséria

Tem gente que se acha super politizada ao criticar os programas do governo de combate à fome, à miséria, à pobreza. Cheios de preconceitos enchem suas bocas (e timelines) de críticas destrutivas. Apequenam-se a cada crítica sem fundamento e a cada bobagem que divulgam...Essa espécie geralmente recusa-se a ler muito mais do que frases de impacto no facebook e em pensar fora da caixa. :/

Para os outros, segue abaixo o vídeo de uma entrevista muito boa que o Nassif fez com quem realmente entende do assunto, porque estudou profundamente, analisou dados concretos e refletiu sobre a desigualdade social em nosso país: Ricardo Paes de Barros.Também tem a versão escrita no jornal GGN ;)

segunda-feira, 7 de dezembro de 2015

Curriculum Vitae

Às vezes, ou quase sempre, lamentavelmente, quando pensamos ou nos perguntamos sobre a nossa trajetória profissional, o centro exclusivo das referências está nos cursos realizados, na formação acadêmica e na experiência vivida na área de profissão. Fica de fora como algo sem importância a nossa presença no mundo. É como se a atividade profissional dos homens e das mulheres não tivesse nada que ver com suas experiências de menino, de jovem, com seus desejos, com seus sonhos, com seu bem-querer ao mundo ou com seu desamor à vida. Com sua alegria ou com seu mal-estar na passagem dos dias e dos anos. Na verdade não me é possível separar o que há em mim de profissional do que venho sendo como homem.”  (Paulo Freire – Política e Educação: ensaios)

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Fora Cunha!

Eeee laiá...Agora além da uva passa no arroz e na maionese, e dos monstros familiares de fim de ano, muita gente boa está fadada a ouvir as baboseiras das "tiazonas" e dos "tiozões" reaças comemorando o suposto "impitima" da Dna Dilma...É, o "pedido de impitima", do Cunha bandidão, tinha que acontecer bem agora em dezembro pra animar a "torcida reaça" nos encontros festivos- natalinos-familiares (rs).  Pelo menos as chantagens desse bandido o governo nâo terá de aturar mais. Menos um. Ho!Ho!Ho! 

                              

quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Samarco: o jogo dos sete erros

Vamos brincar um pouquinho? Assista e compare os dois vídeos abaixo . Aproveite a oportunidade para pensar:  Qual o valor de palavras profundas na boca dos que vivem de maneira tão rasa?









terça-feira, 10 de novembro de 2015

Entre as fantasias dos adultos e as realidades infantis

É comum a gente conhecer quem queira ter filhos, mas ainda não decidiu  ser pai/mãe. (Sim, são condições muito distintas!)
Sonhar em ter bebezinhos "nestlé",  vestidos de bonecos(as) e só fazendo coisinhas fofas e lindas (segundo o gosto de cada casal...), até pode fazer parte, mas é fundamental a consciência de que todo novo "vir a ser" carrega singularidades a serem descobertas e respeitadas por seus cuidadores e responsáveis. Já vi muita gente definindo o sexo, o parceiro ideal e também a profissão de seus filhos antes até de os terem gerado. Muitas vezes esses desejos se apresentam em forma de "brincadeirinhas" numa roda de amigos ou família, mas são indícios do peso que será- de verdade- posto sobre os ombros daquele serzinho que virá . Enfim, encurtando o blá blá blá, achei esta charge genial e faz um pouco esta critica também.


 Por mais adultos respeitadores, exercendo suas funções na vida das crianças com responsabilidade e amor.

domingo, 6 de setembro de 2015

Com conhecimento e sem medo da morte

Com bom humor e clareza, o  Prof Karnal (Unicamp) discorre a respeito do medo do inevitável.

sábado, 5 de setembro de 2015

Por Eliane Brum: “Me chamem de velha”

Na semana passada, sugeri a uma pessoa próxima que trocasse a palavra “idosas” por “velhas” em um texto. E fui informada de que era impossível, porque as pessoas sobre as quais ela escrevia se recusavam a ser chamadas de “velhas”: só aceitavam ser “idosas”. Pensei: “roubaram a velhice”. As palavras escolhidas – e mais ainda as que escapam – dizem muito, como Freud já nos alertou há mais de um século. Se testemunhamos uma epidemia de cirurgias plásticas na tentativa da juventude para sempre (até a morte), é óbvio esperar que a língua seja atingida pela mesma ânsia. Acho que “idoso” é uma palavra “fotoshopada” – ou talvez um lifting completo na palavra “velho”. E saio aqui em defesa do “velho” – a palavra e o ser/estar de um tempo que, se tivermos sorte, chegará para todos.

Desde que a juventude virou não mais uma fase da vida, mas uma vida inteira, temos convivido com essas tentativas de tungar a velhice também no idioma. Vale tudo. Asilo virou casa de repouso, como se isso mudasse o significado do que é estar apartado do mundo. Velhice virou terceira idade e, a pior de todas, “melhor idade”. Tenho anunciado a amigos e familiares que, se alguém me disser, em um futuro não tão distante, que estou na “melhor idade”, vou romper meu pacto pessoal de não violência. O mesmo vale para o primeiro que ousar falar comigo no diminutivo, como se eu tivesse voltado a ser criança. Insuportável.

A velhice é o que é. É o que é para cada um, mas é o que é para todos, também. Ser velho é estar perto da morte. E essa é uma experiência dura, duríssima até, mas também profunda. Negá-la é não só inútil como uma escolha que nos rouba alguma coisa de vital. Semanas atrás, em um programa de TV, o entrevistador me perguntou sobre a morte. E eu disse que queria viver a minha morte. Ele talvez não tenha entendido, porque afirmou: “Você não quer morrer”. E eu insisti na resposta: “Eu quero viver a minha morte”.
 
Na adolescência, eu acalentava a sincera esperança de que algum vampiro achasse o meu pescoço interessante o suficiente para me garantir a imortalidade. Mas acabei aceitando que vampiros não existem, embora circulem muitos chupadores de sangue por aí. Isso só para dizer que é claro que, se pudesse escolher, eu não morreria. Mas essa é uma obviedade que não nos leva a lugar algum. Que ninguém quer morrer, todo mundo sabe. Mas negar o inevitável serve apenas para engordar o nosso medo sem que aprendamos nada que valha a pena.
 
A morte tem sido roubada de nós. E tenho tomado providências para que a minha não seja apartada de mim. A vida é incontrolável e posso morrer de repente. Mas há uma chance razoável de que eu morra numa cama e, nesse caso, tudo o que eu espero da medicina é que amenize a minha dor. Cada um sabe do tamanho de sua tragédia, então esse é apenas o meu querer, sem a pretensão de que a minha escolha seja melhor que a dos outros. Mas eu gostaria de estar consciente, sem dor e sem tubos, porque o morrer será minha última experiência vivida. Acharia frustrante perder esse derradeiro conhecimento sobre a existência humana. Minha última chance de ser curiosa.
 
Há uma bela expressão que precisamos resgatar, cujo autor não consegui localizar: “A morte não é o contrário da vida. A morte é o contrário do nascimento. A vida não tem contrários”. A vida, portanto, inclui a morte. Por que falo da morte aqui nesse texto? Porque a mesma lógica que nos roubou a morte sequestrou a velhice. A velhice nos lembra da proximidade do fim, portanto acharam por bem eliminá-la. Numa sociedade em que a juventude é não uma fase da vida, mas um valor, envelhecer é perder valor. Os eufemismos são a expressão dessa desvalorização na linguagem.
Não, eu não sou velho. Sou idoso. Não, eu não moro num asilo. Mas numa casa de repouso. Não, eu não estou na velhice. Faço parte da melhor idade. Tenho muito medo dos eufemismos, porque eles soam bem intencionados. São os bonitinhos mas ordinários da língua. O que fazem é arrancar o conteúdo das letras que expressam a nossa vida. Justo quando as pessoas têm mais experiências e mais o que dizer, a sociedade tenta confiná-las e esvaziá-las também no idioma.
 
Chamar de idoso aquele que viveu mais é arrancar seus dentes na linguagem. Velho é uma palavra com caninos afiados – idoso é uma palavra banguela. Velho é letra forte. Idoso é fisicamente débil, palavra que diz de um corpo, não de um espírito. Idoso fala de uma condição efêmera, velho reivindica memória acumulada. Idoso pode ser apenas “ido”, aquele que já foi. Velho é – e está. Alguém vê um Boris Schnaiderman, uma Fernanda Montenegro e até um Fernando Henrique Cardoso como idosos? Ou um Clint Eastwood? Não. Eles são velhos.

Idoso e palavras afins representam a domesticação da velhice pela língua, a domesticação que já se dá no lugar destinado a eles numa sociedade em que, como disse alguém, “nasce-se adolescente e morre-se adolescente”, mesmo que com 90 anos. Idosos são incômodos porque usam fraldas ou precisam de ajuda para andar. Velhos incomodam com suas ideias, mesmo que usem fraldas e precisem de ajuda para andar. Acredita-se que idosos necessitam de recreacionistas. Acredito que velhos desejam as recreacionistas. Idosos morrem de desistência, velhos morrem porque não desistiram de viver.

Basta evocar a literatura para perceber a diferença. Alguém leria um livro chamado “O idoso e o mar”? Não. Como idoso o pescador não lutaria com aquele peixe. Imagine então essa obra-prima de Guimarães Rosa, do conto “Fita Verde no Cabelo”, submetida ao termo “idoso”: “Havia uma aldeia em algum lugar, nem maior nem menor, com velhos e velhas que velhavam…”.

Velho é uma conquista. Idoso é uma rendição. Como em 2012 passei a estar mais perto dos 50 do que dos 40, já começo a ouvir sobre mim mesma um outro tipo de bobagem. O tal do “espírito jovem”. Envelhecer não é fácil. Longe disso. Ainda estou me acostumando a ser chamada de senhora sem olhar para os lados para descobrir com quem estão falando. Mas se existe algo bom em envelhecer, como já disse em uma coluna anterior, é o “espírito velho”. Esse é grande.

Vem com toda a trajetória e é cumulativo. Sei muito mais do que sabia antes, o que significa que sei muito menos do que achava que sabia aos 20 e aos 30. Sou consciente de que tudo – fama ou fracasso – é efêmero. Me apavoro bem menos. Não embarco em qualquer papinho mole. Me estatelei de cara no chão um número de vezes suficiente para saber que acabo me levantando. Tento conviver bem com as minhas marcas. Conheço cada vez mais os meus limites e tenho me batido para aceitá-los. Continua doendo bastante, mas consigo lidar melhor com as minhas perdas. Troco com mais frequência o drama pelo humor nos comezinhos do cotidiano. Mantenho as memórias que me importam e jogo os entulhos fora. Torço para que as pessoas que amo envelheçam porque elas ficam menos vaidosas e mais divertidas. E espero que tenha tempo para envelhecer muito mais o meu espírito, porque ainda sofro à toa e tenho umas cracas grudadas à minha alma das quais preciso me livrar porque não me pertencem. Espero chegar aos 80 mais interessante, intensa e engraçada do que sou hoje.

Envelhecer o espírito é engrandecê-lo. Alargá-lo com experiências. Apalpar o tamanho cada vez maior do que não sabemos. Só somos sábios na juventude. Como disse Oscar Wilde, “não sou jovem o suficiente para saber tudo”. Na velhice havemos de ser ignorantes, fascinados pelas dimensões cada vez mais superlativas do que desconhecemos e queremos buscar. É essa a conquista. Espírito jovem? Nem tentem.

Acho que devíamos nos rebelar. E não permitir que nos roubem nem a velhice nem a morte, não deixar que nos reduzam a palavras bobas, à cosmética da linguagem. Nem consentir que calem o que temos a dizer e a viver nessa fase da vida que, se não chegou, ainda chegará. Pode parecer uma besteira, mas eu cometo minha pequena subversão jamais escrevendo a palavra “idoso”, “terceira idade” e afins. Exceto, claro, se for para arrancar seus laços de fita e revelar sua indigência.

Quando chegar a minha hora, por favor, me chamem de velha. Me sentirei honrada com o reconhecimento da minha força. Sei que estou envelhecendo, testemunho essa passagem no meu corpo e, para o futuro, espero contar com um espírito cada vez mais velho para ter a coragem de encerrar minha travessia com a graça de um espanto.

Texto de Eliane Brum

Capturado de:  http://www.contioutra.com/me-chamem-de-velha-por-eliane-brum/

terça-feira, 19 de maio de 2015

Por que as greves dos professores não dão ibope? (II)

Professores de seis Estados e de pelo menos sete municípios estão em greve

Professores das redes estaduais de seis Estados estão em greve, segundo a CNTE (Confederação Nacional dos Trabalhadores em Educação). Os Estados que estão paralisados são Pará, Santa Catarina, Paraná, São Paulo, Goiás e Sergipe.

Em São Paulo, os professores estão em greve há mais tempo, desde o dia 13 de março por uma reajuste salarial de 75,33%. A porcentagem equivale ao cumprimento da meta 17 do Plano Nacional de Educação, que estabelece a equiparação do rendimento médio dos professores ao rendimento médio dos demais profissionais com mesma escolaridade.

São Paulo- governador Geraldo Alckmin (PSDB)
Paraná- governador Beto Richa (PSDB)
Pará- governador Simão Jatene (PSDB)
Goiás- governador Marconi Perillo (PSDB)

Santa Catarina- governador Raimundo Colombo (PSD)

Sergipe- governador Jackson Barreto (PMDB)

terça-feira, 5 de maio de 2015

Por que as greves dos professores não dão ibope?

Além dos professores das escolas do estado do Paraná, desgovernado pelo PSDB,  também já fizeram greve esse ano professores de outros oito estados brasileiros. Quatro, desse total de nove estados, são governados pelo PSDB. Confira abaixo a quais partidos são filiados os respectivos governadores. 

São Paulo- governador Geraldo Alckmin (PSDB)
Pará- governador Simão Jatene (PSDB)
Goiás- governador Marconi Perillo (PSDB)

Paraíba- governador Ricardo Coutinho (PSB)
Distrito Federal- governador Rodrigo Rollembichaerg (PSB)

Alagoas- governador Renan Filho (PMDB)

Roraima- governadora Sueli Campos (PP)

Amazonas- governador José Melo (PROS)

Agora pense nos parcos comentários (garimpados) do PSDB a respeito da greve no Paraná:

E por falar em mídia...Aquele  "Fantástico" programa exibido pela rede Globo aos domingos mencionou a greve dos Professores no Paraná, no último domingo? Não? Sério? Precisa falar mais, ou pela observação dos fatos e o raciocínio lógico você já entendeu que o PSDB é elitista e é blindado pela grande mídia?
É importante ficarmos atentos ao que acontece ao nosso redor...Política acontece diariamente, não só em tempo de eleições e diz respeito a todos, não só a uma classe ou outra de trabalhadores.


quinta-feira, 30 de abril de 2015

Trio parada dura


Pois tem gente que já tendo visto os estragos desses (des)governos tiranos em "outros carnavais" diz apoiá-los (leia-se: vota no PSDB) como forma de protesto, porque está com bronquinha do PT. Vamos esclarecer: protesto e estupidez NÃO são sinônimos. #Prontofalei                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                                      

segunda-feira, 27 de abril de 2015

E por falar em terceirização...

Terceirização é um dos assuntos em pauta atualmente no Brasil. Se rir  não tira o sofrimento, ao menos pode ajudar na distração da dor e colaborar para o bom humor na luta. Pausa para o riso, então. Riamos...


Charge Duke
fonte: http://blogdosimao.blogosfera.uol.com.br/2015/04/25/ueba-terceirizaram-deus-2/

Já riu? Agora é sério...
Ponto de vista: Para Mangabeira Unger, terceirização pode aumentar precarização no trabalho

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Vai-se o homem, fica sua luz... Adeus, Eduardo Galeano!

Por Eduardo Galeano
"Que tal se delirarmos por um momentinho?
Ao fim do milênio vamos fixar os olhos mais para lá da infâmia para adivinhar outro mundo possível.
O ar vai estar limpo de todo veneno que não venha dos medos humanos e das paixões humanas.
As pessoas não serão dirigidas pelo automóvel, nem serão programadas pelo computador, nem serão compradas pelo supermercado, nem serão assistidas pela televisão.
A televisão deixará de ser o membro mais importante da família.
As pessoas trabalharão para viver em lugar de viver para trabalhar.
Se incorporará aos Códigos Penais o delito de estupidez que cometem os que vivem por ter ou ganhar ao invés de viver por viver somente, como canta o pássaro sem saber que canta e como brinca a criança sem saber que brinca.
Em nenhum país serão presos os rapazes que se neguem a cumprir serviço militar, mas sim os que queiram cumprir.
Os economistas não chamarão de nível de vida o nível de consumo, nem chamarão qualidade de vida à quantidade de coisas.
Os cozinheiros não pensarão que as lagostas gostam de ser fervidas vivas.
Os historiadores não acreditarão que os países adoram ser invadidos.
O mundo já não estará em guerra contra os pobres, mas sim contra a pobreza.
E a indústria militar não terá outro remédio senão declarar-se quebrada.
A comida não será uma mercadoria nem a comunicação um negócio, porque a comida e a comunicação são direitos humanos.
Ninguém morrerá de fome, porque ninguém morrerá de indigestão.
As crianças de rua não serão tratadas como se fossem lixo, porque não haverá crianças de rua.
As crianças ricas não serão tratadas como se fossem dinheiro, porque não haverá crianças ricas.
A educação não será um privilégio de quem possa pagá-la e a polícia não será a maldição de quem não possa comprá-la.
A justiça e a liberdade, irmãs siamesas, condenadas a viver separadas, voltarão a juntar-se, voltarão a juntar-se bem de perto, costas com costas.
Na Argentina, as loucas da Praça de Maio serão um exemplo de saúde mental, porque elas se negaram a esquecer nos tempos de amnésia obrigatória.
A perfeição seguirá sendo o privilégio tedioso dos deuses, mas neste mundo, neste mundo avacalhado e maldito, cada noite será vivida como se fosse a última e cada dia como se fosse o primeiro.”

domingo, 5 de abril de 2015

Feliz Páscoa


Anunciação
I.
são tantos...

tantos os cordeiros
à tua mesa...

farta
farta ceia
de cristos
nesta páscoa...

vai...
tomai
desse sangue...

segue...
comei
desses corpos...

e nesse silêncio
de talheres
e dentes

(desligaste
o noticiário,
é evidente)

a paz
aos poucos
te preenche

oh, tão plena
comunhão!

(não há 
mais profunda 
eucaristia
que a digestão)

e se algo lá dentro
ainda te incomoda,
caso seja necessário,
confessa
- como sempre - 
no banheiro
teus pecados.

II.
quer
que eu 
saia?

não somos dignos
de entrar em vossa morada?

não vos esqueçais
consertamos vossas casas...
seguramos tuas bandejas...
ensinamos teus filhos e 
afiamos,
sim, afiamos
tuas facas...

sabemos tudo
o que aí se passa...
e como rezam a missa...

ah, vão chamar
a polícia?

nos prender?
nos matar? arrastar?
apagar? esquecer?
vão nos crucificar?

mas,
saibas...

ressuscitamos
todo santo dia
nas quebradas
(não só no terceiro)

somos Amarildos, Marighellas, Eduardos, Lamarcas...
somos Herzogs, Douglas, Heleniras, Cláudias...

estamos vivos, vivões,
em milhares de caras,
braços, olhos, falas,
corações...

e vai chegar o tempo
- teu apocalipse? -
em que vamos destruir
teu templo
e expulsar teus
vendilhões

(esses
que nos compram
e vendem como bois)

III.
come bananas...
reza teu terço...

finge
- enfim -
que não vês
nada...

mas
saibas

"não vim
trazer a paz,
mas a espada."

[À memória viva de: Helenira Rezende (1944-1972?) "desaparecida" durante a ditadura militar brasileira; Amarildo Dias de Souza (1965/66-2013?) "desaparecido" após ser levado por policiais militares da porta de sua casa; Carlos Margihella (1911-1969) assassinado pelos órgãos da ditadura brasileira; Claudia Silva Ferreira (1974-2014) arrastada por um camburão e assassinada por policiais militares; Carlos Lamarca (1937-1971) assassinado pelos órgãos da ditadura brasileira; Douglas Rafael da Silva Pereira (1989-2014) assassinado por policial militar; Vladimir Herzog (1937-1975) assassinado pelos órgãos da ditadura brasileira; Eduardo de Jesus (2005-2015) assassinado por policiais militares no Complexo do Alemão (RJ) e à memória viva de tantos outros "desaparecidos" e assassinados pela ditadura e pela democratura brasileira.]