domingo, 12 de abril de 2009

Medo


Logo que chegamos ao Brasil, o Vic, apontando com o dedinho, perguntou-me:

-"Mamãe, por que é que aqui no Brasil tem muito desse aqui ó..."

-O nome disto é grade ou também portão. Aqui no Brasil as pessoas colocam grades nas casas porque elas tem medo de ladrão.

-"Nossa! Então aqui no Brasil existe bandido de verdade?!"

Poucos meses depois ele presenciou uma tentativa de assalto aqui em casa, como já mencionei num post anterior.

Mês passado ele soube que levaram o carro do "titio Fábio" lá em São Paulo.

Semana passada, ele soube que o carro do titio Fábio- que já havia sido encontrado- foi roubado ( outra vez!) em Valinhos.

Ontem à noite, um casal de amigos e seus dois filhos vieram nos ver. Enquanto o Alex abria o portão de casa para eles, uma dupla veio assaltá- los a mão armada. Isso aconteceu com a mesma naturalidade com que algumas pessoas, no mesmo instante, bebiam no barzinho da nossa esquina.

O pequeno Vic, desde aquele dia, quando soube o nome e a função das grades, verbaliza sua própria conclusão:

-"No Japão tem perigo de taifu* e de jishin**. No Brasil tem perigo de ladrão."

* tufão

** terremoto

OBS: Retirei a imagem acima da Internet via google :)




sexta-feira, 3 de abril de 2009

Honestidade


"Tenho visto pessoas bem moralistas agindo errado e todos os dias comprovo que a honestidade não precisa de regras."
Albert Camus


sexta-feira, 6 de março de 2009

De volta à Campinas

Pois é...Estamos vivendo há um mês em Campinas. Vic e eu. Na próxima segunda feira, dia nove de março, Alex também estará de volta ao Brasil. Chegará exatamente no dia de seu trigésimo quarto ano de vida! (EEEEEEE!). Véspera de nosso oitavo aniversário de casamento, dia 10 de março (EEEEEEE! de novo). Vamos retomar (ou refazer) nossa vida no Brasil, que aliás tem sido um recomeço desde sempre.

Casamo-nos em 10 de março de 2001. Naquela época, montamos nossa primeira casinha, achando que moraríamos por um bom tempo nela. Meu pai morreu no mês de junho e fomos para Alemanha em agosto do mesmo ano. Na Deutschland, em apenas UM ano, trocamos de moradia pelo menos QUATRO vezes (na mesma cidade!). Fomos dois e voltamos três, pois o "Pitchu" foi gerado por lá. Gerado na primavera européia, nascido no verão brasilero, em janeiro de 2003. Antes, porém, do nascimento dele, ficamos hospedados (ou agregados?) na casa do meu irmão, por quase três meses, até que encontramos um "apertamento" pra gente morar. Aquietamo-nos, por fim, na Av. Sta Izabel, em Barão Geraldo (Campinas), até início de maio de 2006, quando decidimos ir para o Japão. Lá fomos nós: papai, mamãe e filhinho para o Nihon, em 2006, onde experimentamos novas aventuras.Vic e eu moramos lá durante dois anos e meio. Alex que ainda não chegou, já completou seus 3 anos de vivência no Japão.

Agora estamos de volta à boa, velha e cara Barão Geraldo, na cidade de Campinas.

Estou contente, por sentir-me "em casa", de certa forma. Gosto de Barão, por suas árvores, rostos e jeitos típicos. A Unicamp com seus ipês amarelos, a praça do coco que está agora mais bonita, além de outros lugares, fatos e sentimentos, fazem-me sentir bem neste lugar.

Claro, nem tudo são flores... Por exemplo, já levamos um susto na casinha aqui, onde estamos morando. Fomos visitados por um ladrão de bicicleta, em pleno horário de almoço, na segunda semana como moradores do bairro. A invasão causou-nos um grande susto. O intruso foi surpreendido também com a atitude dos moradores da rua que, praticamente, levaram o cidadão à polícia...Mas essa história eu conto outro dia, ou não...O que mais importa neste momento, pra mim, é aproveitar a chegada do Alex, fazermos nosso rearranjo, ver ôs ipês e passar por debaixo das sombras das árvores baronenses. Quero viver, enfim, o que de bom for posível aqui em Barão, com meus amores.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2009

O VELHO DA PRAÇA

Ontem deitei-me para dormir, mas a dor em meu estômago não queria dar-me trégua. Então, assim, acordada, veio-me a lembrança de um velhinho que sempre encontrávamos, Vic e eu, na praça em frente de casa, lá no Japão.

Naquela praça, onde as tardes de meia estação passavam sem qualquer urgência, depois das aulas do Vic, notava sempre aquele ancião andando ao redor das árvores. Ele olhava para o topo delas, como quem confere algo, e falava sozinho, ou com elas - nunca soube. Parecia um ritual diário. Depois de rodear as mesmas árvores de sempre, vinha ele até onde quer que eu estivesse e instalava-se ao meu redor. Era complicado...Na absurda maioria das vezes, eu não compreendia aquele senhorzinho de idade avançada, mas ele não tinha pressa para explicar-me. Era persistente em "conversar" comigo, apesar de minha notável limitação. ( Considerando que ele falava sozinho ou, talvez, com árvores, tentar comunicar-se com esta gaijin* não deveria mesmo ser tão ruim.)

Depois de nossa primeira "conversa", quando o vovô soube quem éramos (que vinhamos do Brasil como dekasseguis e que o Vic estudava em escola japonesa), o oditchan** falava-me sobre o tempo, as árvores, os insetos que viviam ali na praça, as promoções do dia nos supermercados do bairro... Algumas vezes, ele também interagia com as crianças, soltava brinquedos presos aos galhos das árvores, pegava cigarras nas mãos para mostrar aos meninos e conversava com eles sobre insetos. O vovô morava ali perto, do outro lado da praça. Numa daquelas casas velhas de lata, pintadas de vermelho (ou cor de vinho?) é que ele vivia.

Aquele oditchan, tinha aparência de gente pobre e sofrida, apesar de seu sorriso constante. Andava sempre em passinhos curtos e rápidos. Usava chinelos de dedo e calças com aspecto encardido. Tinha os dentes estragados. Poucos, aliás.

Outro dia, encontramo-nos, ao acaso, no shopping do bairro. Era verão e já não frequentávamos mais a praça, pois o calor era escaldante...Eu tinha acabado de comprar um sorvete para o Vic e o velhinho, atento, perguntou-me se eu também gostava de sorvete. Disse que sim, sorrindo nervosa, com medo que ele forçasse mais uma daquelas tentativas sofríveis de conversa ... Para o meu alívio, o vovô não estendeu-se no assunto. Partiu. E voltou! Enquanto Vic e eu estávamos sentados num banco, o velho (amigo?) surpreendeu-me com um sorvete de presente. Fiquei muito constrangida, embora grata. Depois disso, num outro dia de verão, encontramos-nos num mercado. Eu já estava de saída quando o velhinho sorridente veio atrás de mim com três sorvetes dizendo: "Um para o pai, um para a mãe e um para o menino..." Cheguei em casa com os sorvetes e contei para os dois que era presente do "oditchan da praça"... Dias depois viemos para o Brasil, supostamente de férias.

Ontem, antes de dormir, lembrei-me dessas coisas e fiquei pensando: o que será que o vovô da praça anda fazendo?


* estrangeira
** vovô

domingo, 25 de janeiro de 2009

Surpresas, crise e recomeço

Que a crise econômica mundial afetou a vida de muitos dekassegis, todos já sabem.
O que alguns não sabem é que Victor e eu já estávamos no Brasil antes da "bomba" ser anunciada pela mídia. E que, na verdade, esta nossa estada prolongada por aqui foi uma coincidência...
Viemos para visitar a vovó (em Sorocaba) em Julho. Deveríamos ter regressado ao Japão em Setembro, mas fomos impedidos pela polícia federal. Por ignorância nossa, viajei com o Victor do oriente para o ocidente sem a autorização (resgistrada) paterna. E tudo correu bem- na vinda. Muitos policiais, algumas entrevistas, muitas revistas- nos EUA (claro!), mas nenhum pedido de autorização. Cheguei ao Brasil com o Vic e os policiais sorriram pra gente.
Na tenativa de voltar, porém, tivemos a grande surpresa! No aeroporto, durante o checking , um funcionário, da mesma companhia aérea que nos trouxe, pediu-me a autorização judicial para que eu saísse do país com meu filho. Minha ignorãncia e despreparo eram tais que achei que fosse uma brincadeira. Só percebi a seriedade ao ver o semblante do funcionário...
Resumo dessa nossa ópera: não ingressamos. A agência de viagens vendeu-nos passagens com preços promocinais e com restrições, como por ex, estávamos impossibilitados de trocar data de vôo sob quaisquer circunstãncias...
Primeiro ficamos muito frustrados. Depois de dias, começamos a pensar se valeria mesmo a pena investirmos uma quantia elevada para regressarmos ao Japão, ou se o Alex é que deveria voltar pra cá...Estávamos colocando na ponta do lápis (e nos corações)uma série de fatores.
Enquanto pensávamos em nossas vidas, começaram as demissões em massa onde Alex trabalhava, como em todo o Japão.
Finalmente chegou o dia em que Alex foi demitido também, porém imediatamente relocado em outra fábrica, o que rendeu-lhe dois meses de salário e esperança. Depois disso foi demitido outra vez, em meio a outra leva de funcionários.
Agora, Alex aguarda receber o seu seguro desemprego antes de voltar, como tantos outros dekasséguis.
As agências públicas de emprego no Japão,chamadas "Hello Work",estão abarrotadas de desempregados. Dura verdade: nihonjin e gaijin estão sendo engolidos pelo furacão do desemprego.
Resumo dessa (outra) nossa ópera: Alex já está de malas prontas e vamos ter que (mais uma vez) recomeçar.
Na próxima semana, se não houver mais imprevistos (afinal, nossa vida é uma aventura..) devemos estar em Campinas, em um novo endereço. As aulas do Vic começam em 02 de fev e encontramos uma escola muito bacana para ele! :)
Breve mais notícias. (Espero que boas!)


PS:

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sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

É...

José

E agora, José?

A festa acabou,

a luz apagou,

o povo sumiu,

a noite esfriou,

e agora, José?

e agora, você?

você que é sem nome,

que zomba dos outros,

você que faz versos,

que ama, protesta?

e agora, José?


Está sem mulher,

está sem discurso,

está sem carinho,

já não pode beber,

já não pode fumar,

cuspir já não pode,

a noite esfriou,

o dia não veio,

o bonde não veio,

o riso não veio

não veio a utopia

e tudo acabou

e tudo fugiu

e tudo mofou,

e agora, José?


E agora, José?

Sua doce palavra,

seu instante de febre,

sua gula e jejum,

sua biblioteca,

sua lavra de ouro,

seu terno de vidro,

sua incoerência,

seu ódio - e agora?


Com a chave na mão

quer abrir a porta,

não existe porta;

quer morrer no mar,

mas o mar secou;

quer ir para Minas,

Minas não há mais.

José, e agora?


Se você gritasse,

se você gemesse,

se você tocasse

a valsa vienense,

se você dormisse,

se você cansasse,

se você morresse...

Mas você não morre,

você é duro, José!


Sozinho no escuro

qual bicho-do-mato,

sem teogonia,

sem parede nua

para se encostar,

sem cavalo preto

que fuja a galope,

você marcha, José!

José, pra onde?


(Carlos Drummond de Andrade)


PS: Na foto, o Vic em maio de 2006. Logo que chegamos ao Nihon...

sábado, 13 de dezembro de 2008

Não me conformo!

Estava de passagem pela sala, aqui na casa da vovó (Sorocaba), e vi parte de uma entrevista...
Gente, fiquei chocada. Mais uma vez: CHOCADA!
Chegou ao Brasil a moda dos EUA (claro!) de alugar bolsas e outros acessórios de grifes famosas e caras (ou seriam, caras e famosas?).
Quero acreditar que entendi errado, mas ouvi dizer o valor do aluguel de uma bolsa por R$400,00!!! Detalhe: pra "bonita" usar NUMA festa chic!!!
Ah, mas a dona da loja explicou: que um "mimo desses custa R$6.000,00, na verdade". E a besta do entrevistador afirmou que:" em tempos de crise, as pessoas devem mesmo usar a criatividade".
Mimo?! Que nojo! Isso é IMORAL!!!
Crise? Nesse caso, crise de Valores, não?
Criatividade? Na selva de pedras até os conceitos perdem seus Valores.