sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Coleção de gafes

Abaixo estão alguns constragimentos de principiantes que aconteceram com a gente por aqui.


1) Primeiro dia que fui almoçar no restaurante da Canon com Alex e outro colega dekasegi...

Fr -Hmm...adoro comida japonesa!
Cd -Que bom! Não vai sofrer então...
Fr- Vou experimentar o karê daqui, hoje!
Cd-karê , não é comida japonesa. É indiana!
Fr-Hãã... Bem, eu adoro miso-shiru!
Cd- Miso-shiru é muito bom, mesmo. Mas também não é comida japonesa. É chinesa...
Fr- Yaki-soba...
Cd-Chinesa.
Fr-Lamem...
Cd-Chinesa
Fr- Bom, eu gosto de comidas orientais... :)


2) Numa loja, pensando numa lembrancinha para enviar para o meu irmão...

Fr-Hmm...que caneca bonita! Uma bela lembrança japonesa!
Alex- Vamos levar várias...Podemos mandar para vários amigos diferentes.
Fr-Boa idéia! Tão bonitas e tão baratinhas, né?

...Mais tarde, em casa, do lado externo e em baixo das canecas (bem escondidinho) lemos um registro: Made in China. :)


3) Semana passada estávamos num Matsuri*...

Vic- Mamãe, mamãe...Compra uma máscara daquelas pra mim?
Fr- Hmmm...
Alex- Não! Pelamordedeus! Este pedaço de plástico que não vai durar uma semana custa 1ooo ienes!
Fr- Tudo bem! Vamos para uma loja de hyaku-en**! Tem uma aqui pertinho, com várias opções. Lá você pode escolher qual quiser!

... Na loja...

Vic- Quero aquela!
Fr-Certo. Dá aqui que eu já vou passando no caixa...

...No caixa...

Moça do Caixa- Desculpe. Blá, blá, blá e blá
Fr- Desculpe, eu não entendo japonês! Espere um pouco, por favor...

(Chamei o Alex pra traduzir)

E lá vem o Alex sem a máscara na mão...

Alex- Vamos embora...
Fr- Mas e a máscara do Vic?
Alex- As máscaras não estão à venda. São enfeites da loja...

Tóim!
(Mas encontramos uma máscara para o Vic, em outra loja e ele ficou feliz)

* Matsuri- festival de rua
** Loja de hyaku-en- equivale à loja de 1,99 no Brasil. Tem dessas lojas em todo canto por aqui!


Outro dia eu escrevo mais. É, as gafes não foram poucas... Vou deixar as outras para um próximo post. E quem nunca pagou um mico que atire a primeira banana! :)


quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Outono

Vejam, o sol se pondo às 16h...
O outono começou em outubro. Já estamos em novembro de 2007!
Tem estado um friozinho gostoso, daqueles em que a gente sente vontade de tomar miso-shiru*bem quentinho todas as noites. Hmmm...

*sopa de pasta de soja com o que mais vc quiser adicionar.

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A incrível história do pastor Jaspion*

Aqui onde moramos** havia uma pequena igreja pentecostal (brasileira) que disputava fiéis com duas outras igrejas pentecostais da cidade vizinha. Umas de suas concorrentes é a poderosa IURD- aquela que você já viu na televisão, do Edir Macedo. A outra concorrente da igrejinha não é famosa como a IURD, mas também a incomoda. Talvez por ter mais adeptos e por roubar alguns de seus (in)fiéis...

Uma das estratégias de pescaria da pequena igreja foi a abertura de uma escola brasileira com boa estrutura física e uma dose considerável de falácia. Foram espertos. Já estenderam o negócio religioso para a área educacional, de forma que, os pais com filhos em idade escolar, membros da igreja, são "convidados" a privilegiarem a escola dos seus pastores. E os pais que não são da igreja, mas que têm os seus filhos na escola brasileira, são frequentemente convidados a fazerem "aquela visitinha"(estratégica, claro). Plano perfeito. Inclusive, no discurso dos pastores, a sua escola é uma obra missionária. Estes pastores comovem seus membros com discursos dito divinos e proféticos para angariar fundos para sua escola. (Só que a obra missonária deles cobra o mesmo preço de mensalidade que as escolas que não são para Jesus. Interessante, não?)

Bem, por estes tempos atrás a famigerada igrejinha devia estar em crise...Um dos pastores, o "chefe-mor" deles, recebeu uma profecia de Deus num culto. Deus o avisou que ele (o pastor) ficaria cego por uma espada e que o tempo estava próximo! (Ohhhhhhhhhh...)

Na tarde do dia seguinte, quando havia ninguém para testemunhar, eis que a profecia da noite anterior foi cumprida. Ao sair de seu carro para entrar em seu escritório, o pastor, com sua bíblia na mão, foi abordado por quatro (!) Yakuza! Um dos gangsters tentou atingir o pastor com sua espada (!), mas o homem de Deus, colocou a bíblia à frente e, neste instante, resplandesceu uma luz tão intensa que cegou a ambos!

O espadachin voltou para o carro ajudado pelos demais e fugiram todos atônitos com a cegueira do companheiro...

O pastor continuou cego por algumas horas naquele dia, mas teve sua visão restaurada e um novo grande testemunho pra levar aos seus crentes.

Se a história deste pastor gerou bons resultados finais para sua empresa, eu não sei. Mas sei que algumas pessoas saíram indignadas com o excesso de criatividade do pastor e me contaram o episódio.

A última notícia que eu tive da igrejinha decadente do "super-pastor" é que ela foi enfrentar suas concorrentes mais de perto, ali na cidade vizinha.

Que os pentecostais têm, ou dizem que têm, visões e experiências sobrenaturais já é sabido de muitos. Inclusive o Universo Acadêmico, já há algum tempo, tem se interessado seriamente pelo fenômeno pentecostal na américa latina, especialmente no Brasil. Mas, pelo amor de Deus, né? Diria, o meu pai, com sorrisinho irônico: "É o fim dos tempos!"

Imagine se os Yakuza souberem desta blasfêmia...


*Jaspion:
http://www.youtube.com/watch?v=R-vmzH4TPXQ

** Moramos em Ishige Machi, no estado de Ibaraki.

Sonzinho (para variar) sobre o assunto:

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Pais e filhos

Nosso Vic está agora em escola (pública) japonesa. Ele entrou no Yoochien* sem saber uma frase,que fosse, em Japonês. Sabia poucas palavras: banheiro, água, obrigado e, se eu não me engano, só.

Alex e eu ficamos muito preocupados com a sobrevivência dele ali no meio dos japinhas. Afinal, os últimos dias do Victor na escola brasileira foram muito conturbados. O último dia, em epecial, foi uma tragédia. Nos mostraram uma cadeirinha quebrada ao meio e nos informaram que o Victor tinha lançado o objeto contra a parede para acertar um coleguinha! Imaginem a nossa preocupação e angústia...A dona da escola, tecnicamente uma pedagoga, já havia acusado o pequeno réu de "muito mentiroso", no dia anterior, quando fizemos algumas denúncias sobre a sua então professora. ( Curiosamente uma das denúncias havia sido sobre agressão física e terrorismo psicológico).

Ficamos chocados com a novidade trazida pela dona da escola. Afinal, a acusação da pedagoga ia contra tudo o que víamos em nosso filho diariamente, dentro de casa e em outros contextos. Ia também contra os relatos e as observações feitos por funcionárias e ex-funcionárias da mesma escola. Tão pouco condizia com toda a educação que ele recebe dentro de casa, de forma direta ou indireta.

Mas, estávamos entre as acusações de uma "profissional experiente" e nosso filho de 4 anos.

Há muito tempo Alex e eu vínhamos refletindo sobre a qualidade da escola brasileira aqui no Japão. Várias vezes havíamos sido tentados a experimentar a escola japonesa. Os últimos dias haviam sido a gota d'água.

Alex e eu concordamos que era passada a hora de eu voltar a ficar em casa com o Vic e de tirarmos o garoto daquela escola. (Aliás, só fui para a fábrica para podermos quitar nossa dívida de passagem com a empreiteira que nos trouxe até o Japão. Não tivemos escolha neste detalhe.)
Enfim, voltei a ser apenas uma mamãe em casa e esperamos, durante dois meses, iniciar o ano letivo da escola japonesa, onde matriculamos o Vic. Durante este tempo fui conversando com ele, preparando o seu coraçãozinho para a nova mudança. Vic, durante 8 meses na escola brasileira, tinha desaprendido coisas que em casa havíamos ensinado. Então, este foi um tempo útil também para redirecioná-lo em certos bons hábitos.

A nova experiência tem sido ótima!

A escola japonesa influencia muito suas criaças a contemplarem e respeitarem a natureza. E não somente isto. Eles estimulam as crianças a terem contato com a terra e os animais. No yoochien as crianças estão diariamente cuidando de plantinhas que elas próprias plantam. Depois colhem os frutos de seu trabalho e trazem para suas casas para saborearem esta alegria com suas famílias.

Em dias especiais,ajudam no preparo da refeição usando, por exemplo, batatas que eles mesmos colheram nos arredores da escola. Acho estas experiências riquíssimas para os pequeninos.

Eles também têm um bichinho de estimação no jardim de infância. A escola do Vic, por ex, tem uma ave grande (não sei que nome tem, mas me parece da família dos galináceos, só que é grande...). A cada dia um aluninho diferente fica responsável por alimentar o mascote da escola. O rodízio é feito até que todas as crianças participem do cuidado com a alimentação do bichinho. E depois a lista recomeça... Assim, também, as crianças pequenas vão aprendendo a ter responsabilidades, respeito e cuidado com a natureza.

Outro trabalho que a escola japonesa faz com seus alunos é ensinar brincadeiras infantis tradicionais. Nesta semana, por exemplo, o Vic vai começar a aprender a pular corda. Depois que aprendem, eles têm um dia de competição, onde os filhos mostram aos pais que já sabem pular corda, por exemplo. Também tem o dia da corrida, do futebol, do bambolê etc...

Mais uma coisa boa! Fazem ginástica diariamente. Ah, e também têm iniciação musical. Começam desde cedo a aprender rítmica. (Com 3 anos, por ex, já usam castanholas nas apresentações da banda da escola). O Vic, que já tem 4 anos, está na turminha do pandeiro. Ano que vem terá outras opções.

Voltando ao início do post, onde dizia que Alex e eu estávamos preocupados com a sobrevivência do Vic na escola japonesa...Então, 8 meses se passaram desde que matriculamos nosso filho na nova escola. E o resultado tem sido muito bom! Victor tem aprendido dois novos idiomas sem correr o risco de se esquecer de sua lingua materna, uma vez que em casa conversamos muito com ele, sempre e somente em português. Está aprendendo japonês com muita rapidez e facilidade. E tem aulas de inglês também na escola, com professor especializado.

Ficou muito bem desde o seu primeiro dia ali. Claro que fizemos um trabalho de preparação psicológica aqui em casa, mas a forma como tem sido tratado na escola por sua professora e demais funcionários tem sido exemplar e isto conta muito para a adaptação de uma criança num novo ambiente.

Estamos constantemente em contato com a escola. Há sempre reuniões, festas e aulas abertas, onde podemos não apenas perguntar, mas também ver o desenvolvimento dele e sua interação saudável com os colegas. E o rapazinho foi promovido de réu a "muito inteligente, sociável e prestativo".

Recentemente matriculamos nosso garotão numa academia de judô, onde ele, mais uma vez e felizmente, foi super bem recebido pelos amiguinhos e professores. Tem sido ótima
esta experiência também! Ele está ampliando seu conhecimento cultural, crescendo e gastando muita energia!

E nós, os pais, vamos colecionando experiências e aprimorando a arte da sobrevivência neste mundão sem fim...Como dizia meu pai: "Na pior das hipóteses, tudo é experiência!"

Ps: Vic na foto está usando uniforme da escola. O chapéu amarelo faz parte.

* yoochien significa jardim de infância




sábado, 3 de novembro de 2007


Por quê os nossos japoneses são "melhores" que os deles?
"Minha alma tem o peso da luz. Tem o peso da música. Tem o peso da palavra nunca dita, prestes quem sabe a ser dita. Tem o peso de uma lembrança. Tem o peso de uma saudade. Tem o peso de um olhar. Pesa como pesa uma ausência. E a lágrima que não se chorou. Tem o imaterial peso da solidão no meio de outros." (Clarice Lispector)
- "Enquanto você está dormindo, tem 15.000 japoneses estudando."

Que vestibulando já nao ouviu esta afirmativa terrorista?

De fato, é perceptível o número (avantajado?) de japas na universidades públicas brasileiras. Geralmente eles estão alocados nos cursos mais concorridos, não é? Engenharias e Ciências médicas em geral (Sonhos de consumo da massa vestibulanda)

Pois é. Fatos assim nos levam a imaginar que japonês (descendente, eu quero dizer) é - por definição - um sujeito estudioso, aplicado etc...

Descobri o motivo deste nosso pré-conceito bem fundamentado. Descobri não, criei uma teoria a respeito. Melhor: levantei uma hipótese... (gostou, hein?) Os outros* mestiços estão todos aqui!

Tem uma peça mais rara que a outra... Quem quiser,pode conferir abaixo, alguns diálogos reais que tive com colegas (japas) de fábrica ...

* outros: aquele grupo que nega a imagem do "japa-obssessivo" :) Ou, se preferir, os descentendes menos favorecidos :/

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Fr -Oi, x! Tude bem?
X -Minina! Eu num tô andando bem. Tô ismagrecendu demais da conta!
Fr - Nossa!

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X- Vc parece estudada...
Fr-Sério? Pq?
X- O jeitinho q ce fala é diferente. Parece uma professorinha falando...
Fr- Hmm... (com sorriso amarelo)

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O terrível dia em que vazou que eu era "formada" em Filosofia...
(Detalhe importante: esta informação entrou na fábrica via dona da "escolinha" -brasileira- onde meu filho, lamentavelmente, ficou matriculado por 8 meses.)
X-Minina! Então quer dizer que no Brasil ce era formada professora?
Fr-Quem disse?
X-A pastora lá, dona da escola...
Fr- Não é bem assim, pq, na verdade...
X-Tá vendo só? E não adiantou nada, né? Estudou tanto, coitada...E tá aqui cum nóis do mesmo jeito...

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Y- Então...Vc estudou o que mesmo?
Fr-Filosofia.
Y-Fisolofia?Xiiiiiii...Fisolofia é facinho...Passei direto! A gente só entregamos um trabalhinho em grupo lá e boa...

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Z- Ow, é verdade que vc estudou filosofia, lá?
Fr- É. Mas eu só fiz a graduacao.
Z-Nossa, legal cara! Eu curto muito esse lance assim, tipo papo cabeça, saca?
Fr-Hm...
Z- Eu curto muito Paulo Coelho, cara! Vc tb curte?

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W- Então, quer dizer q temos aqui uma filósofa...
Fr-Não! Não é bem assim...Veja...
W-Como não é isto? Fez filosofia, é filósofa! E, já q vc é inteligente, explica isto aqui pra ela, que ela não tá me entendendo...

#

T- Meu, já que vc estudou filosofia, me diz:
Fr- Hm?
T- Deus existe?
Fr-Quem sabe, né?
T-A...Vc é ateu! Filósofo é tudo doidão! Tudo ateu!

#

P- Filosofia, né?
Fr- Isto.
P-Legal, legal...Mas assim...Tipo...Pra que é q serve mesmo esta matéria?

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Choque Cultural

No Brasil, antes de migrar, senti medo. Pensei nas dificuldades de adaptação pelas quais passaríamos, tive medo daquele japonês frio e calculista que existe no imaginário brasileiro. Pensei que não fosse capaz de suportar um trabalho manual e monótono com um japonês gritando ao meu lado: "Mais rápido, mais rápido!", ou torturas semelhantes. Apesar do medo, cheguei até esta "Ilha" tão distante...
Meu primeiro trabalho foi na Canon. Minha primeira quebra de pré-conceito cultural, sobre os japoneses, foi alí também. Entre risos, sorrisos, e simpatias, entre paciência e persistência, meus superiores (japoneses) foram me ensinando tudo. Humanidade e técnica foi o que, basicamente, eles usaram no treinamento. Depois do treinamento, os chefes estavam sempre acompanhando o trabalho de perto e sempre com boa educação.
O terrível choque cultural que tive aqui-pasmem- foi com meus conterraneos. Muitos ( na verdade, a maioria de meus veteranos dekasegis) me deixaram espantada com tosquices múltiplas. Os exemplos são tantos e tão variados q seria exaustiva a lista. Mas para que se tenha uma idéia, digo que a lista varia de questões higiênicas a ocorrências policiais por agressões físicas, roubos de carros etc. Pasmem, continuem pasmando...Eu aida nao consegui parar, depois de um ano e meio aqui.
O último exemplo absurdo que presenciei foi numa fábrica de sanduiches, onde eu fazia"arubaito", ou "bico", como dizem os paulistas. Eu estava aprendendo um serviço novo. Aliás, eu era nova ali.Uma brasileira jovem, bonita, com 10 anos de experiência naquela fábrica, estava trabalhando ao meu lado. (É, isto mesmo. Dez anos preparando sanduiches!) De repente ela gritou:
-"Se você não for trabalhar bem longe de mim, eu arrebento a tua cara!Eu juro! Eu odeio a tua lerdeza!"
Ainda nao descobri o que foi mais grotesco. Se foi a atitude da bela mocinha deseducada ou a cumplicidade das outras veteranas, que me disseram coisas como:
-"Ah, vai se acostumando que nesta linha tem muita gente stressada!"
Então, mais uma vez eu pensei sobre o que eu vim fazer aqui, neste "mundo" tão distante...